
Corações ocupados
31 de Maio de 2026A adoração eucarística é um face a face e um coração a coração com Jesus Cristo, que se desdobra em tantos modos de rezar quantos são os orantes. «Adorar é sentir que nos pertencemos mutuamente, eu e Deus».
ADORAÇÃO
No coração do século XIV, época em que os fiéis raramente se aproximavam da comunhão eucarística, o fervor católico encontrou o seu refúgio no desejo ardente de contemplar a hóstia consagrada. A esse propósito, Santa Gertrudes de Helfta (1256-1301/1302) intuiu que cada olhar lançado à hóstia com devoção dilata no ser humano a capacidade de saborear as delícias da eterna visão de Deus.
O instante da elevação durante a missa cedo se revelou breve para a sede do povo crente. Sem a prática regular da comunhão, o desejo exigia o prolongamento do olhar, e esse tempo estendeu-se através da permanência da hóstia exposta na custódia à veneração dos fiéis. Entretanto, com a oficialização da festa do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – o nosso Corpo de Deus –, difundiam-se as procissões eucarísticas, com recurso aos mais diversos formatos de custódia, termo que evoca o que serve para guardar e proteger. A forma de sol, a mais comum na atualidade, apareceria por volta do século XVI.
A adoração eucarística é um face a face e um coração a coração com Jesus Cristo, que se desdobra em tantos modos de rezar quantos são os orantes. Diante do Santíssimo Sacramento, alguns entregam-se ao silêncio e ao diálogo interior; outros encontram apoio na meditação da palavra de Deus; há quem se auxilie na recitação rítmica de jaculatórias; a Igreja encoraja também a beleza partilhada da Liturgia das Horas.
De qualquer modo, a adoração é, por natureza, o prolongamento da eucaristia, pelo que nunca se fecha numa devoção puramente privada. Não se trata apenas de constatar: «Tu estás aí», mas de nos unirmos à oferenda total que Jesus Cristo faz de si mesmo ao Pai e à humanidade.
É esta pertença que o Papa Francisco iluminou na homilia da Epifania de 2020, cujas palavras merecem ser lidas na íntegra e guardadas no coração: «Adorar é sentir que nos pertencemos mutuamente, eu e Deus. É tratá-Lo por “Tu” na intimidade, é depor a seus pés a nossa vida, permitindo-Lhe entrar nela. [...] É descobrir que, para rezar, basta dizer “Meu Senhor e meu Deus!” e deixar-me invadir pela sua ternura. [...] Adorar é um gesto de amor que muda a vida».




