
Creio na Igreja
28 de Junho de 2025
Niceia, evento eclesial
5 de Julho de 2025Hoje, a oração mais simples e, porventura, a mais necessária é: Senhor, ajuda-me a olhar; ajuda-me a escutar o milagre do outro, a maravilha da vida, a grandeza da criação, a beleza da tua presença.
ESPANTO
As comunidades não nascem da eficiência ou do rigor organizacional, mas da atitude de assombro, como aquele menino, diante do mar, suplicava: «Ajuda-me a olhar!».
Recordo a história de Eduardo Galeano, no Livro dos Abraços, que descobri primeiro nos textos do cardeal Tolentino de Mendonça: Diego não conhecia o mar. O pai levou-o a ver o mar. Quando chegaram, depois de muito caminharem e vencerem as altas dunas, «o mar explodiu-lhes diante dos olhos. E era tal a imensidão do mar e tal o seu fulgor, que o menino emudeceu de formosura. Quando enfim conseguiu falar, trémulo, gaguejante, pediu ao pai: — Ajuda-me a olhar!».
Não é isto, afinal, o que todos precisamos: alguém que nos ajude a olhar para a vida, para Deus, para a criação, para os outros, e até para nós, com olhos tocados pelo assombro?
O espanto pede tempo. Num mundo apressado, olhar e escutar são atos de resistência. A vida amadurece na arte da demora, na capacidade de parar, de silenciar, de olhar a “sarça que arde” onde só vemos rotina, de escutar a brisa suave que passa diante de nós. O milagre talvez esteja sempre ali, à espera da nossa pausa. Como lembra Simone Weil, a atenção é já uma oração.
A comunidade cresce no acolhimento simples de quem chega, no sorriso partilhado, no silêncio respeitado durante a oração, na escuta atenta de quem atravessa um momento difícil. É na partilha dos dons, dos bens, das fragilidades e das alegrias que a comunidade se faz corpo.
Só o assombro devolve a profundidade: ajuda-nos a olhar, não apenas a ver; ajuda-nos a escutar, não apenas a ouvir. Ver e ouvir são automáticos; olhar e escutar requerem o compromisso do coração. São verdadeiros atos proféticos, sobretudo num tempo de ruído e de distração, de competição e de sobrevalorização da eficácia.
Não se trata, por isso, de eficiência ou perfeição organizativa. Antes de tudo, trata-se de preparar o coração para a surpresa, para a beleza, para o mistério do outro, para o espanto.
Hoje, a oração mais simples e, porventura, a mais necessária é: Senhor, ajuda-me a olhar; ajuda-me a escutar o milagre do outro, a maravilha da vida, a grandeza da criação, a beleza da tua presença.




