
Niceia, evento eclesial
5 de Julho de 2025
Guiados pelo Espírito ou parados na margem?
11 de Janeiro de 2026Recordar Maria e a Cruz em conjunto é, por isso, recordar que o amor e a fraternidade brotam da cruz. O amor autêntico não nasce de um egoísmo que se fecha, mas de um encontro que se abre ao outro, mesmo quando esse encontro implica carregar com as fragilidades dele, outras vezes deixar que carreguem as nossas.
MARIA
Setembro chega e, com ele, o calendário da Igreja convida-nos a um percurso peculiar. Quase de mão dada, celebramos a Natividade de Maria (dia 8), o seu Santo Nome (dia 12) e, logo a seguir, a Exaltação da Santa Cruz (dia 14). Como se ligam estas três celebrações? A resposta, creio, está em Maria ao pé da cruz. Ora, a 15 de setembro celebramos a memória da Virgem Santa Maria das Dores, sendo que uma das sete dores é, precisamente, junto à cruz.
Maria estava lá. Presente até ao fim, na hora mais escura, ao lado de algumas mulheres e do “discípulo amado”. É um contraste brutal com a fuga e o medo dos outros discípulos, que se esconderam ou espreitavam de longe.
Maria, as suas companheiras e aquele discípulo também teriam medo, certamente. Mas estavam lá. E isto ensina-nos algo fundamental: a coragem não é a ausência de medo, mas a recusa da cobardia. É a força de permanecer, mesmo quando tudo em nós nos pede para fugir.
Nos seus últimos suspiros, suspenso na cruz, Jesus olha para a mãe e para o discípulo e tece uma nova relação: «Mulher, eis o teu filho». E ao discípulo diz: «Eis a tua mãe». O que acontece ali é muito mais do que um filho preocupado com o futuro da sua mãe. Jesus não a chama “mãe”, mas “mulher”, um título que a eleva a símbolo de toda a Igreja que ali nascia. E o “discípulo amado” não é apenas João; somos nós, sou eu e és tu. Naquele momento, Jesus entrega a Igreja aos nossos cuidados e entrega-nos ao cuidado da Igreja.
A última palavra da cruz não é de abandono, mas de acolhimento, de uma nova família. A Igreja é, ou pode ser se nos quisermos comprometer, este lugar onde nos acolhemos uns aos outros.
Recordar Maria e a Cruz em conjunto é, por isso, recordar que o amor e a fraternidade brotam da cruz. O amor autêntico não nasce de um egoísmo que se fecha, mas de um encontro que se abre ao outro, mesmo quando esse encontro implica carregar com as fragilidades dele, outras vezes deixar que carreguem as nossas. É aí que a cruz deixa de ser apenas um instrumento de tortura e se torna gloriosa. Não uma cruz que nos esmaga e mortifica, mas uma cruz que, partilhada, nos eleva e nos santifica.



