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Partilhas

O nosso tempo carece de silêncio, somos ‘analfabetos do silêncio’. Nós, todos somos agentes de ruído, precisamos de escutar «a palavra que leva ao silêncio» (John Main), promover o silêncio exterior e educar para o interior. Um e outro colocam-nos na experiência do assombro, no espanto da vida, na beleza da criação, na descoberta do divino que habita o centro do ser.  

SILÊNCIO

Somos seres da palavra, caracteriza-nos a capacidade de, através de um vocabulário comum, criar relações, laços de amizade. O que não impede de cuidar do silêncio também como forma de expressão, tão importante como qualquer alimento da nossa sobrevivência.

A revista do semanário Expresso (edição de 31 de agosto) revela que somos dos países mais barulhentos da Europa, o quarto da União Europeia mais exposto à poluição sonora. A Agência Europeia do Ambiente assinala outro dado preocupante: no ano de 2017, em Portugal, 92 pessoas morreram prematuramente por causa do barulho.

A Organização Mundial da Saúde alerta que a poluição sonora interfere no desenvolvimento cognitivo, com efeitos nocivos na audição, mas também na qualidade do sono, na obesidade, na pressão arterial e no risco de ataque cardíaco. 

As novas gerações, fruto da maior exposição às novas tecnologias, em especial os altos volumes dos auscultadores, estão entre os principais pacientes com dificuldades auditivas.

O silêncio devia ser proclamado Património Imaterial da Humanidade, desejou o (novo) cardeal José Tolentino Mendonça, aquando da participação no festival literário ‘Correntes d’Escritas’. Noutro momento escreveu que um dos contributos importantes da experiência religiosa, para a humanidade, «mais até do que a palavra será a partilha desse património imenso que é o silêncio. […] Precisamos do auxílio de outra ciência, a que recorremos pouco: o silêncio. Isaac de Nínive, lá pelos finais do século VII, ensinava: ‘A palavra é o órgão do mundo presente. O silêncio é o mistério do mundo que está a chegar’. […] O silêncio é um instrumento de construção, é uma lente, uma alavanca. […] O silêncio é um traço de união mais frequente do que se imagina, e mais fecundo do que se julga».

O nosso tempo carece de silêncio, somos ‘analfabetos do silêncio’. Nós, todos somos agentes de ruído, precisamos de escutar «a palavra que leva ao silêncio» (John Main), promover o silêncio exterior e educar para o interior. Um e outro colocam-nos na experiência do assombro, no espanto da vida, na beleza da criação, na descoberta do divino que habita o centro do ser. É a partir de dentro, a partir de ‘si’ que se inicia o ‘silêncio’.